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Panorama Econômico
Fabiana Rolfini
Publicado em 07/02/2012 às 15:24Diretrizes da economia brasileira
Com a crise financeira mundial, que atinge com maior gravidade a Europa, crescem as incertezas sobre os rumos da economia no Brasil. Especialistas revelam suas perspectivas e traçam um possível cenário no país para 2012, envolvendo os principais impactos que a atual situação externa pode causar
Desencadeada em 2008, a crise das hipotecas imobiliárias nos Estados Unidos, que se deu devido à quebra do Lehman Brothers (quarto maior banco de investimentos dos EUA), causou uma grave crise financeira mundial, fato que desestruturou a economia de diversos países, principalmente na União Europeia. Para diminuir os impactos da crise, os governos decidiram ajudar os setores mais críticos da economia, emprestando grandes quantias de dinheiro, o que provocou a diminuição da arrecadação e o aumento de dívidas. Em meados de 2010, a situação econômica na Europa se agravou e, até hoje, países como a Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália sofrem com um endividamento descontrolado. A fim de reduzir os impactos da crise e evitar maiores problemas no futuro, líderes da União Europeia anunciaram, em 9 de dezembro de 2011, um tratado com pelo menos 23 países para reforçar o euro e discutir novas medidas a serem promovidas.
Diante deste cenário, os rumos que a economia brasileira seguirá em 2012 geram algumas incertezas, principalmente aos negócios e investimentos de empresas de todos os portes. Com o objetivo de mapear um cenário econômico no Brasil para este ano, conversamos com economistas e especialistas no tema, que revelam quais são as projeções e possíveis impactos na economia do país, causados pelo que ocorre na Europa. “A crise europeia já nos atinge pela escassez de linhas de crédito e queda de demanda por produtos de exportação. Se evoluir para uma crise financeira, decorrente do colapso do euro ou da quebra de grandes bancos europeus, assistiríamos a uma parada no crédito, com graves efeitos para o financiamento do consumo, da produção e das exportações”, alerta Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria. “A única instituição com poder de fogo para resolver o problema é o Banco Central Europeu, mas a Alemanha resiste teimosamente em apoiar essa saída. A desintegração do euro e da União Europeia não é o cenário mais provável, mas a possibilidade não deve ser descartada”, complementa.
A situação econômica presente no Brasil encontra-se em desaceleração, provocada por medidas para conter os efeitos inflacionários decorrentes tanto dos impactos da crise europeia, como do excessivo crescimento de 2010 - de 7,5% em relação ao ano anterior. Segundo Gustavo Loyola, sócio diretor da Tendências Consultoria, o resultado também foi causado pelo aperto monetário conduzido pelo Banco Central no início do ano passado. “Encerramos 2011 com a economia em desaceleração, mas com o governo adotando algumas medidas para estimular o seu crescimento”, afirma. Entre as ações está a redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre os chamados produtos de linha branca, como fogão e geladeira, anunciada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, em dezembro de 2011. Com a medida, para fogões, por exemplo, a alíquota, que era de 4%, foi zerada. Para geladeira, o percentual passou de 15 para 5% e, para máquinas de lavar, de 20 para 10%. Outras medidas do governo brasileiro estão ligadas a redução da taxa de juros básica, bem como um possível aumento na base do programa Bolsa Família e no valor do salário mínimo, em 14%.
Considerando um cenário de normalidade na Europa, sem o ressurgimento de uma grave crise financeira, as projeções para 2012 são que os juros (Selic) devam cair 9,5% até meados do ano, a inflação pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deva ficar em torno de 5,6% e o Produto Interno Bruto (PIB), poderá alcançar um crescimento em torno de 3,7%, de acordo com as estimativas da Tendências Consultoria. “O crescimento, ainda que modesto, deverá se sustentar pela expansão do consumo, que por seu turno decorrerá da continuidade dos ganhos de renda dos trabalhadores (massa salarial real crescendo mais de 5%) e da expansão do crédito (algo em torno de 15%)”, explica Maílson da Nóbrega. Diferentemente do que acontece atualmente na Europa, em que o problema que atinge mais gravemente a população é o desemprego, no Brasil, a taxa que era de 6%, caiu para 5,8% em outubro de 2011. “Não há sinais de que haja uma piora no número de desempregados no país, embora os números do Ministério do Trabalho divulgados recentemente mostraram que a criação de empregos com carteira assinada diminuiu consideravelmente ao longo de 2011. Havia uma previsão de quase 3 milhões de novos empregos, o que talvez chegue a 2,2. Esse é um dos efeitos da crise”, aponta Manuel Enriquez Garcia, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEAUSP) e presidente da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).
Ainda segundo Garcia, a taxa de câmbio será um dos desafios da economia brasileira neste ano, já que estando valorizada, atrapalha o setor exportador e é um forte incentivo ao setor importador. “Em uma perspectiva mais longa, se exportarmos menos e importarmos mais, teremos problema na balança comercial, na relação entre o Brasil e demais países, além de um problema chamado desindustrialização. Como o câmbio é valorizado, daremos espaço para que produtos provenientes de países que produzem mais barato, principalmente os da China, cheguem ao Brasil com preços inferiores aos custos do país”, enfatiza.
De fato, produzir no Brasil é muito caro devido à alta carga tributária e, neste sentido, os especialistas são unânimes em afirmar que não há possibilidade de uma reforma tributária no país em 2012. “A indústria brasileira perde competitividade devido aos problemas relacionados aos tributos”, ressalta Gustavo Loyola. “Não vejo chances de acontecer uma reforma tributária no governo atual. A complexidade da tarefa, que inclui mobilizar governadores e o Congresso, requer maior nível de liderança política”, opina Maílson da Nóbrega. “O grande problema é que, na Constituição de 1988, o volume de transferências tributárias da União para os Estados e Municípios aumentou consideravelmente em relação à Constituição de 1977. A partir daí, a União criou um conjunto de contribuições sociais ou sob domínio econômico, as quais o governo não aceitará retirá-las, mas sim até aumentá-las com uma nova CPMF, por exemplo. A tendência está em aumentar a carga tributária”, analisa Manuel Enriquez Garcia, da FEAUSP e da OEB. Para se ter uma ideia, segundo o Índice de Variação da Arrecadação Tributária (IVAT), apurado periodicamente pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a arrecadação tributária do primeiro semestre de 2011 apresentou um crescimento de 17,22% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
A relação comercial com países que possuem mercados emergentes tem sido parte relevante no crescimento da economia brasileira nos últimos anos, como é o caso da China. “Particularmente quanto ao Brasil, a expansão da China é essencial para preservar a demanda de commodities brasileiras (mercadorias produzidas em larga escala e comercializadas em nível mundial), como alimentos e minério de ferro, que nos últimos anos foi a fonte básica de superávits na balança comercial”, comenta Maílson da Nóbrega. “A dinâmica da economia brasileira hoje é muito dependente do mercado interno, o que impacta a nossa capacidade de manter em crescimento a renda interna e o crédito interno. Porém, em muitos segmentos como o agronegócio, temos uma dependência do que acontece fora do país, o que é potencialmente mais vulnerável a uma mudança conjuntural no exterior, principalmente na economia chinesa”, explica Gustavo Loyola.
Mercado de TI
Intrinsecamente ligado à economia, o setor de TI cresce, tradicionalmente, a taxas superiores ao PIB. O mercado brasileiro de TI é o sétimo maior do mundo e seu faturamento em 2010 foi de US$ 85 bilhões, respondendo por 4% do PIB nacional, segundo levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). As projeções indicam que o setor deve crescer em torno de 15% em 2012, alavancado pela crescente demanda da sociedade e de empresas de todos os setores da economia por tecnologia. A partir de um cenário econômico mais conturbado, Gustavo Loyola adianta que o setor pode ser afetado caso haja retração do crédito. “Uma possível reação das empresas será o adiamento de prováveis investimentos, o que acontece quando há uma percepção no declínio da atividade econômica no país”, informa.
De acordo com o presidente da Brasscom, Antonio Gil, este ano será marcado pela desoneração da folha de pagamentos para as empresas de software e serviços de TI, medida aprovada pela Câmara dos Deputados em outubro de 2011 e que terá vigência até 2014. “A ação altera a contribuição previdenciária do setor, substituindo a tributação de 20% incidente sobre a folha de pagamento por uma cobrança de 2,5% sobre o faturamento das empresas”, explica Gil, ressaltando que a medida visa reduzir custos e aumentar a competitividade da indústria brasileira de TI no mundo.
Em 2012, as atenções do setor se voltarão ao início da execução de projetos relacionados à Copa do Mundo a ser realizada no Brasil em 2014. “Haverá grandes projetos de infraestrutura tanto de telecomunicações quanto de sistemas de informação para operacionalizar serviços nas dez cidades que sediarão o evento. Isso irá mobilizar e gerar oportunidades em praticamente todos os segmentos de produtos de TI, consultorias e serviços, bem como para diversos portes de empresas fornecedoras”, comenta Eduardo Garcia, Managing Partner da EPG Consultores Associados. “Conceitos como Cloud Computing e Software as a Service (SaaS) também impulsionarão mudanças de estratégias nas empresas por representarem possibilidades concretas de atualização tecnológica atrelada a custos mais competitivos. Muitas empresas vêm se preparando para adotar novas plataformas de ERPs, CRM e outros aplicativos que estejam aderentes a essas novas tecnologias, fazendo de 2012 um ano promissor para venda de produtos e projetos”, acrescenta.
Apesar do destino incerto que a economia europeia seguirá nos próximos anos e o quanto isso poderá impactar o cenário econômico brasileiro, o PIB do país deve crescer em torno de 3,7%, estimulado por algumas medidas criadas pelo governo para incentivar o maior consumo da população. Estabelecer relações comerciais com países emergentes será relevante ao dinamismo da economia nacional. Para as empresas, o setor de TI deve manter o crescimento e oferecer oportunidades promissoras de negócios com a proximidade de grandes eventos nos próximos anos como a Copa do Mundo. O fato é que não conseguiremos fugir de prováveis surpresas decorrentes do desenrolar da crise na Europa. É aguardar pelos próximos acontecimentos.













